sábado, 14 de outubro de 2017

Gênio Indomável (Good Will Hunting)


2 Oscar: Roteiro Original (Matt Damon e Ben Affleck), Ator Coadjuvante (Robin Williams)

Indicações: Filme (Lawrence Bender), Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Atriz Coadjuvante (Minnie Driver), Canção (Miss Misery – Elliott Smith), Montagem (Pietro Scalia), Trilha Sonora – Drama (Danny Elfman)

Ano em que concorreu: 1998


Gênio Indomável, assim como os outros filmes que concorreram ao Oscar de 1998, conseguiu resistir ao tempo e envelhecer bem. Comparado aos indicados de melhor filme, é um drama mais discreto e intimista que poderia passar despercebido, mas consegue a identificação do público com a história de Will Hunting (Matt Damon), um rapaz que trabalha como faxineiro e em outros serviços pesados e que demonstra um enorme talento para a matemática, porém sua personalidade forte e a capacidade de sabotar si mesmo impedem que ele se integre ou crie laços com as pessoas. Após ser descoberto por um dos professores resolvendo um problema matemático dificílimo, Will tem a chance de sua vida e passa a ser orientado pelo psiquiatra Sean Maguire (Robin Williams) com quem mantem uma relação turbulenta de início e depois nasce uma terna amizade. Matt Damon e Ben Affleck foram alçados ao estrelato após este trabalho que valeu a eles o Oscar de Roteiro Original, Robin Williams ganhou o Oscar de ator coadjuvante por um de seus melhores papéis mostrando o talento que sempre teve para o drama e Gus Van Sant, diretor de obras transgressoras e independentes como Garoto de Programa, demonstra que também entrega bons filmes para o cinemão hollywoodiano. Além das categorias em que ganhou, Gênio Indomável conseguiu outras sete indicações, o que surpreendeu muita gente na época, visto hoje, sabemos que o filme chama atenção justamente pela sua certeira simplicidade e ainda possui muitas qualidades que estão em falta na atual safra do cinema americano.


Tubarão (Jaws)


3 Oscar: Trilha Sonora (John Williams), Montagem (Verna Fields), Som (Robert L. Hoyt, Roger Heman Jr., Earl Madery, John R. Carter)

Indicações: Filme (Richard D. Zanuck, David Brown)

Ano em que concorreu: 1976


E nasce o blockbuster tal como o conhecemos. Tubarão é aquele filme evento, que todos esperam e devem ver quando estreia no cinema. A partir daí o cinema hollywoodiano não seria mais o mesmo. E Steven Spielberg entraria em definitivo para a história do cinema. Não podemos esquecer da colaboração clássica de John Williams com uma trilha sonora icônica que, certamente, foi uma das responsáveis pelo imenso sucesso do filme. Quando um tubarão assola uma pequena cidade turística em plena alta temporada, Steven Spielberg opta, devido às dificuldades para fazer um tubarão crível, por fazer apenas a sugestão da presença do predador através da câmera subjetiva e da música que evoca toda uma tensão, resultando num dos grandes suspenses da história. No elenco temos Roy Scheider, Richard Dreyffuss e Robert Shaw, o chefe de polícia, um biólogo e um caçador, respectivamente, que se unem para capturar o gigantesco animal. Já Spielberg, apesar do talento comprovado como realizador, demorou ainda muito tempo para ser reconhecido com um Oscar pela Academia, sendo Tubarão o primeiro de muitos de seus filmes a ser lembrado com indicações nas categorias principais. Mesmo assim Tubarão não fez feio na premiação de 1976 e conquistou 3 estatuetas douradas (entre elas a de trilha sonora para o mestre John Williams).


Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)


2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Mo’Nique), Roteiro Adaptado (Geoffrey Fletcher)

Indicações: Filme (Lee Daniels, Sarah Siegel-Magness, Gary Magness), Diretor (Lee Daniels), Atriz (Gabourey Sidibe), Montagem (Joe Klotz)

Ano em que concorreu:  2010


Preciosa mexe com temas polêmicos e indigestos ao grande público como a gravidez na adolescência, abuso sexual a menores de idade no seio familiar. A protagonista vive uma existência dura, estuprada pelo pai, grávida dele, padece com o desprezo e a violência da mãe. Encontra um conforto na sua imaginação e na escola especial para a qual é encaminhada e tem contato com a professora que  consegue despertar a consciência sobre si mesma e sua condição. Preciosa tem uma direção de mão pesada de Lee Daniels e que extrai atuações poderosas da novata protagonista Gabourey Sidibe e de Mo’Nique, assustadora e desprezível como a mãe abusiva de Precious (merecidamente vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante). Preciosa tem o mérito de causar este incômodo no espectador ao trazer a história de pessoas à margem que passam invisíveis aos nossos olhos e quanto um olhar especial a elas faz toda a diferença numa existência de intenso sofrimento.


Bravura Indômita (True Grit)


Indicações: Filme (Scott Rudin, Joel Coen, Ethan Coen), Diretor (Ethan Coen e Joel Coen), Ator (Jeff Bridges), Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfield), Roteiro Adaptado (Ethan Coen e Joel Coen), Direção de Arte (Jess Gonchor, Nancy Haigh), Edição de Som (Skip Lievsay, Craig Berkey), Figurinos (Mary Zophres), Fotografia (Roger Deakins), Montagem de Som (Skip Lievsay, Craig Berkey, Greg Orloff, Peter F. Kurland)

Ano em que concorreu: 2011


São poucos exemplos de refilmagens que se igualam ou até superam o filme original. Os irmãos Ethan e Joel Coen conseguiram esse feito ao transpor novamente para o cinema a adaptação do livro de Charles Portis, que já havia sido transposta em 1969 por Henry Hathaway, com John Wayne como protagonista (papel que valeu-lhe o Oscar de melhor ator). No lugar de Wayne temos Jeff Bridges no papel do ébrio Delegado Reuben J. Cogburn, contratado pela jovem Mattie Ross (a ótima Hailee Steinfield) para localizar e matar o assassino de seu pai. O que mais agrada neste trabalho é que o filme não é reverente ao clássico de 1969 e reinventa o western (como os próprios Coen já haviam feito de certa forma em Onde os Fracos Não Têm Vez) alternando momentos de humor e violência. Cogburn representa a decadência do cowboy típico, envelhecido e desnecessário numa América que já dava os primeiros passos de modernização, mas que ainda sofria com um mundo sem leis. Jeff Bridges e Hailee Stenfield formam uma dupla impecável, acompanhados ainda da presença de Matt Damon e de Josh Brolin. Bravura Indômita teve 10 indicações ao Oscar e saiu de mãos abanando em todas as categorias, o que não apaga de modo algum o brilho deste trabalho dos sempre competentes irmãos Coen.


A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity)


8 Oscar: Filme (Buddy Adler), Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro (Daniel Taradash), Fotografia – Preto e Branco (Burnett Guffey), Montagem (William A. Lyon), Som (John P. Livadary)

Indicações: Ator (Burt Lancaster), Ator (Montgomery Clift), Atriz (Deborah Kerr), Figurino – Preto e Branco (Jean Louis), Trilha Sonora  - Drama ou Comédia (Morris Stoloff, George Duning)

Ano em que concorreu: 1954


Quando A Um Passo da Eternidade é citado, a primeira imagem que vem à mente é aquela onde Burt Lancaster e Deborah Kerr estão se beijando numa praia e as ondas do mar molham os belos corpos do casal. No entanto, ao assistir ao clássico filme de Fred Zinnemann, vai ser difícil o espectador esquecer a atuação de Montgomery Clift, ele é o coração deste drama de guerra que reconstitui os dias anteriores ao ataque de Pearl Harbour que deflagrou a participação americana na Segunda Guerra Mundial. Clift é Prewitt, um soldado problemático que sofre perseguição dos colegas por se recusar a lutar na equipe de boxe do pelotão e vive um romance com uma prostituta (Donna Reed). Burt Lancaster é o sargento Warden, o comandante da equipe, um homem que tenta manter uma linha dura, mas que ao mesmo tempo possui uma relação quase que paternal com seus subordinados e acaba tendo um caso extraconjugal com a bela Karen (Deborah Kerr), esposa de um dos oficiais do local. Ainda temos Frank Sinatra (num papel vencedor do Oscar de ator coadjuvante) que tem diversos atritos com o general Fatso (Ernest Borgnine), um sargento sádico responsável pela prisão local. A Um Passo da Eternidade cativa o espectador nos dando personagens críveis com os quais o público se importa, além de mostrar que é um dos melhores filmes sobre o ataque a Pearl Harbour com cenas de ação convincentes nos dias de hoje, trazendo aquela boa mistura de épico e emoção que a Academia gosta tanto de laurear.


domingo, 24 de setembro de 2017

Uma Voz nas Sombras (Lilies of the Field)


1 Oscar: Ator (Sidney Poitier)

Indicações: Filme (Ralph Nelson), Roteiro Adaptado (James Poe), Atriz Coadjuvante (Lilia Skala), Fotografia – Preto e Branco (Ernest Haller)

Ano em que concorreu: 1964


Sidney Poitier foi o primeiro negro a receber o Oscar de melhor ator por sua atuação em Uma Voz nas Sombras. Apesar de seu feito ter sido igualado e superado por outros atores, Poitier será sempre lembrado como um pioneiro que inscreveu seu nome na história do cinema com atuações inesquecíveis em No Calor da Noite, Ao Mestre Com Carinho e Adivinha Quem Vem Para Jantar. Homer Smith é um jovem veterano de guerra cujo carro quebra em frente a uma fazenda onde mora um grupo de freiras alemãs, a madre superiora Maria (Lilia Skala, indicada como atriz coadjuvante), considera a presença de Homer naquele momento como um sinal de Deus para que finalmente uma capela possa ser construída. Relutante de início, Homer aceita a missão, além de dar aulas de inglês para o grupo de irmãs e de sempre brigar com Maria, que tem uma postura mandona. Uma Voz nas Sombras transita entre drama e comédia de uma maneira muito suave, e evita o retrato das tensões raciais tão em evidência na época do lançamento, optando pela harmonia entre as personagens e a união em prol de um bem comum e coletivo. Não levantar bandeiras faz com que o filme dialogue mais com um público maior e esta escolha serviu para deixar este trabalho ainda mais atemporal.


A Vida é Bela (La Vitta è Bella)


3 Oscar: Filme Estrangeiro – Itália (Roberto Benigni), Ator (Roberto Benigni), Trilha Sonora – Drama (Nicola Piovani)

Indicações: Filme (Elda Ferri, Gianluigi Braschi), Diretor (Roberto Benigni), Roteiro Original (Vicenzo Cerami, Roberto Benigni), Montagem (Simona Paggi)

Ano em que concorreu: 1999


Roberto Benigni é uma pedra no sapato para os cinéfilos brasileiros, afinal o seu A Vida é Bela tirou as chances do nosso país ganhar seu primeiro Oscar de filme estrangeiro por Central do Brasil, que tinha sérias chances de sair consagrado não fosse a presença da obra italiana entre os indicados. Mas sejamos coerentes, a premiação não foi injusta (já a premiação para Benigni como melhor ator foi, sim, um exagero), A Vida é Bela é um filme emocionante e a Academia não resiste a um drama sobre o Holocausto. Guido (Benigni) passa a primeira metade do filme tentando conquistar a sua amada Dora (Nicoletta Braschi, esposa de Benigni na vida real) dando ao filme um tom cômico que disfarça o que virá a seguir, uma vez que a trama se passa na Itália de Mussolini. Na segunda metade do filme, Guido e sua família são levados para um campo de concentração e Guido cria uma mirabolante história de uma competição para esconder do filho Giosué (Giorgio Cantarini) os horrores do Holocausto judeu. A maneira escolhida por Benigni para contar um período tão dramático e pesado da história da humanidade é leve e esperançosa, colocando a perspectiva infantil em meio a este trágico período, o resultado disso tudo certamente levará o espectador às lágrimas.


Chocolate (Chocolat)


Indicações: Filme (David Brown , Kit Golden , Leslie Holleran), Atriz (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado (Robert Nelson Jacobs), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Trilha Sonora (Rachel Portman)

Ano em que concorreu: 2001

A indicação de Chocolate a melhor filme em 2001 é um indicativo do quão fraco foi o ano anterior em produções. É um romance simpático dirigido por Lasse Halström (Regras da Vida) e tem em Juliette Binoche um dos maiores interesses. Binoche (indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação) é Vianne Roche, uma mãe solteira que vai morar numa pequena cidade francesa e abre uma chocolataria no final da década de 50. Vianne tem a habilidade de adivinhar qual o tipo de chocolate perfeito para cada um dos consumidores que frequentam seu estabelecimento, porém sua conduta livre incomoda os mais conservadores da cidade, incluindo o Conde de Reynaud (vivido por Alfred Molina em uma inspirada atuação, que poderia ser reconhecida com uma indicação ao Oscar). Chocolate não agrega nada de especial ao gênero romance, mas funciona como um bom passatempo que vale pelo elenco que, além da presença radiante de Juliette Binoche, ainda tem Johnny Depp (vivendo um cigano que surge com o seu grupo na cidade e se torna interesse amoroso de Vianne), Judi Dench (sempre chamando a atenção e roubando a cena) e Carrie Anne-Moss (a Trinity de Matrix).


Juno (Juno)


1 Oscar: Roteiro Original (Diablo Cody)

Indicações: Filme (Lianne Halfon , Mason Novick , Russell Smith), Diretor (Jason Reitman), Atriz (Ellen Page)

Ano em que concorreu: 2008

Em 2008, Juno foi a única comédia indicada a categoria de melhor filme num ano de crise econômica (e de uma longa greve dos roteiristas) e de filmes marcados por um tom trágico e pessimista. Ainda assim não trata de uma comédia convencional, apesar de tratar de um tema batido como a gravidez na adolescência, o roteiro premiado de Diablo Cody desenvolve uma protagonista cheia de atitude, ironia e independência. Juno engravida aos 16 anos e decide dar o filho para a adoção. Um casal (vivido por Jason Bateman e Jennifer Garner) se interessa em ficar com o bebê quando este nascer. Diálogos ácidos, situações inusitadas e criativas e um balde de referências à cultura pop tornam este filme mais palatável ao público e o tira do lugar-comum. Juno é a afirmação do talento de Jason Reitman (filho do veterano Ivan Reitman) como diretor, que já havia chamado a atenção em sua estreia com Obrigado por Fumar, e recebeu a primeira indicação ao Oscar de diretor de sua carreira, e a revelação de Diablo Cody que não conseguiu repetir o sucesso em trabalhos posteriores, o filme acabou se tornando uma das melhores comédias americanas da década passada.



Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima)


1 Oscar: Edição de Som (Alan Robert Murray , Bub Asman)

Indicações: Filme (Clint Eastwood , Steven Spielberg , Robert Lorenz), Diretor (Clint Eastwood), Roteiro Original (Iris Yamashita, Paul Haggis)

Ano em que concorreu: 2007


Clint Eastwood estava filmando o drama de guerra A Conquista da Honra quando percebeu que o outro lado do conflito, o dos japoneses, também renderia uma ótima história. Resultado: Cartas de Iwo-Jima acabou surpreendendo o público e crítica mais do que o filme que exalta a participação americana nos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Cartas de Iwo Jima retrata um grupo de soldados japoneses liderados pelo tenente-general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe) em meio à batalha no arquipélago de Iwo Jima, entrincheirados dentro das montanhas enquanto aguardam a ofensiva americana. Nós conhecemos a vida de alguns dos soldados, inclusive a do próprio Kuribayashi, que teve diversos amigos americanos e que agora luta contra os mesmos. Os japoneses ficaram notórios pela resistência e as estratégias arriscadas durante as batalhas e quando a derrota estava próxima de ocorrer, em nome da honra, muitos soldados cometeram suicídio (momentos narrados por Clint com uma densidade incrível). O que chama a atenção em Cartas a Iwo Jima é justamente o respeito à cultura nipônica (o filme todo foi praticamente falado em japonês), voltando um olhar empático àqueles que tão bravamente lutaram, mesmo que ao lado dos nazistas e fascistas. Se não ganhou o Oscar de melhor filme e diretor em 2007 foi somente porque Martin Scorsese e seu  Os Infiltrados mereciam os louvores e o reconhecimento da Academia, pois senão a vitória de Clint seria quase que certa.