domingo, 6 de janeiro de 2019

A Chegada (Arrival)



1 Oscar: Edição de Som (Sylvain Bellemare)

Indicações: Filme (Shawn Levy, Dan Levine, Aaron Ryder, David Linde), Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado (Eric Heisserer), Mixagem de Som (Bernard Gariépy Strobl & Claude La Haye), Direção de Arte (Patrice Vermette & Paul Hotte), Fotografia (Bradford Young), Montagem (Joe Walker)

Ano em que concorreu: 2017

Nem Moonlight, nem La La Land, quem deveria ter sido anunciado como melhor filme em 2017 era A Chegada, obra-prima de ficção científica dirigida por Dennis Villeneuve e que sublima quaisquer clichês de filmes de invasão alienígena. A chegada dos extraterrestres à Terra é apenas o motivador para discutir o poder da linguagem, da comunicação, tanto que a protagonista do filme é a linguista Dr. Louise Banks (Amy Adams), encarregada de tentar um diálogo com os alienígenas afim de entender ou descobrir quais são as intenções de sua vinda ao nosso planeta. O filme alterna duas linhas temporais diferentes e surpreendem o espectador ao final ao vislumbrarmos que elas não representam o tempo que esperamos. Adaptação do conto História de sua Vida, de Ted Chiang, além da excelente direção de Villeneuve, tem a presença e a interpretação radiante de Amy Adams, numa de suas melhores interpretações, injustamente esnobada pela Academia, que sequer deu-lhe uma indicação, uma omissão para entrar na história recente da premiação, num ano de filmes pouco expressivos. A Chegada é um filme que continua na memória do espectador após a projeção, não só pelas muitas questões levantadas, mas pela beleza de suas reflexões sobre os relacionamentos humanos.



O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird)



3 Oscar: Ator (Gregory Peck), Direção de Arte (Alexander Golitzen, Henry Bumstead, Oliver Emert), Roteiro Adaptado (Horton Foote)

Indicações: Atriz Coadjuvante (Mary Badham), Diretor (Robert Mulligan), Filme (Alan J. Pakula), Fotografia – Preto e Branco (Russell Harlan), Trilha Sonora – Substancialmente Original (Elmer Bernstein)

Ano em que concorreu: 1963

Atticus Finch é considerado pelo público americano um dos maiores heróis da história do cinema e não precisou de exercer força física ou ter super-poderes para tal feito. Idealista, o protagonista vivido por Gregory Peck entrou para o imaginário ao defender a justiça e impor-se contra o preconceito numa década em que os direitos civis dos negros ainda eram tabu. Adaptação do best-seller de Harper Lee, o filme é narrado pelo ponto de vista de Jean (Mary Badham), filha do advogado, que presencia toda a comoção em torno da decisão de Atticus defender Tom Robinson (Brock Peters) um homem negro acusado injustamente de violentar uma jovem branca. A visão inocente de uma criança ajuda atenuar o peso da temática do filme, além de idealizar a figura do advogado que protagoniza discursos marcantes durante o julgamento de Tom. Clássico da literatura e do cinema americano, O Sol é Para Todos harmoniza inocência, melancolia, esperança e crítica social como poucos em sua década, imortalizando Gregory Peck num papel que lhe valeu o Oscar de melhor ator.



Los Angeles – Cidade Proibida (L. A. Confidential)



2 Oscar: Atriz coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado (Brian Helgeland e Curtis Hanson)

Indicações: Filme (Arnon Milchan, Curtis Hanson, Michael G. Nathanson), Diretor (Curtis Hanson), Direção de Arte (Jeannine Claudia Oppewall, Jay Hart), Fotografia (Dante Spinotti), Montagem (Peter Honess), Som (Andy Nelson, Anna Behlmer, Kirk Francis), Trilha Sonora – Drama (Jerry Goldsmith)

Ano em que concorreu: 1998

Se Titanic não tivesse no páreo da disputa do Oscar 1998, certamente Los Angeles – Cidade Proibida levaria a melhor e seria laureado como melhor filme. A obra-prima de Curtis Hanson, adaptação do livro de James Ellroy, renova o gênero noir, num policial cheio de reviravoltas, charme e com um elenco primoroso e ainda revelou o talento de Russell Crowe, que se tornaria um grande astro nos anos seguintes. Ao retratar a corrupção na Los Angeles dos anos 50, o filme ainda explora o sensacionalismo do jornalismo em busca de histórias sangrentas para publicar e vender mais exemplares e a prostituição patrocinada por diversos setores. Bud White (Russell Crowe) e Ed Exley (Guy Pearce), dois policiais de perfis muito diferentes são obrigados a trabalhar juntos e investigar uma chacina ocorrida num restaurante que oculta uma rede de corrupção dentro da própria polícia. Além de Crowe, destacam-se Kevin Spacey (como o investigador celebridade Jack Vincennes), Kim Basinger (ótima como a prostituta Lynn Bracken, sósia de Veronika Lake, interesse amoroso do personagem de Russell Crowe, papel que deu-lhe o Oscar de atriz coadjuvante) e Danny DeVitto. Mas quem rouba a cena é o veterano James Cromwell, infelizmente ignorado na temporada de premiações. Uma obra-prima que merece ser conferida: violento, sexy, nostálgico, Los Angeles Cidade Proibida é de longe um dos melhores filmes da década de 90.



domingo, 8 de julho de 2018

O Leitor (The Reader)



1 Oscar: Atriz (Kate Winslet)

Indicações: Filme (Anthony Minghella, Sydney Pollack, Donna Gigliotti, Redmond Morris), Diretor (Stephen Daldry), Fotografia (Chris Menges, Roger Deakins), Roteiro Adaptado (David Hare)

Ano em que concorreu: 2009

O fato mais estranho em relação a O Leitor dentro do Oscar é a indicação de Kate Winslet como melhor atriz, por um papel que é na verdade coadjuvante. Tanto que a atriz conseguiu o feito de no Globo de Ouro ganhar como atriz coadjuvante por esse drama e a de melhor atriz pela sua interpretação em Foi Apenas Um Sonho. Muitos esperavam que a atriz tivesse uma dupla indicação em 2009, como já aconteceu com Sigourney Weaver, Holly Hunter, Emma Thompson e Julianne Moore em anos anteriores, mas a Academia preferiu nomeá-la como atriz principal. E não é que a eterna Rose de Titanic ganhou? E ainda fez um discurso emocionado e sincero sobre o tanto que esperava aquele momento de ter a sua própria estatueta dourada.  Vitória mais do que merecida, coadjuvante ou não, Kate Winslet é o destaque do filme de Stephen Daldry que adapta o romance homônimo de Bernard Schlink e narra o envolvimento do jovem Michael Berg (David Kross, também interpretado por Ralph Fienes na sua fase adulta) com uma mulher mais velha Hanna Schmidt (Winslet) que trabalha num bonde na Alemanha do Pós-Segunda Guerra. O título é devido às leituras em voz alta que Michael faz a sua companheira nos dias em que ele passa com ela, o romance acaba interrompido abruptamente pelo desaparecimento inexplicável de Hannah. O filme dá um salto de anos no tempo e Michael assiste ao julgamento de pessoas envolvidas com o Nazismo e reencontra Hannah numa situação inesperada. Tanto livro quanto filme falam do poder da leitura, da responsabilidade de certas decisões e o quanto elas podem impactar a vida de outras pessoas. Mais um belíssimo filme na conta de Stephen Daldry que tornou-se um dos queridinhos da Academia desde a sua estreia com o belo Billy Elliot e o arrebatador As Horas.



Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark)



4 Oscar:  Direção de Arte (Norman Reynolds, Leslie Dilley, Michael Ford), Montagem (Michael Kahn), Efeitos Especiais (Richard Edlund, Kit West, Bruce Nicholson, Joe Johnston), Som (Bill Varney, Steve Maslow, Gregg Landaker, Roy Charman)

Indicações: Filme (Frank Marshall), Diretor (Steven Spielberg), Fotografia (Douglas Slocombe), Trilha Sonora (John Williams)

Ano em que concorreu: 1982

Com essa primeira aventura do arqueólogo Indiana Jones, Steven Spielberg, ao lado do produtor George Lucas e do roteirista Lawrence Kasdan , decidiu resgatar a nostalgia dos filmes de aventuras dos anos 50, reciclando-os de uma maneira divertida no início dos anos 80. Indiana Jones era um papel primeiramente imaginado para Tom Selleck, que não pode participar das filmagens devido as gravações da série televisiva Magnum. Sorte de Harrison Ford que deu corpo e voz ao protagonista e eternizou Indiana Jones no panteão dos maiores heróis do cinema. O charme de Ford é indiscutível e seu personagem mistura humor, ironia e disposição física para conseguir encontrar o baú que contém os dez mandamentos que está próximo de ser achado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Sequências inesquecíveis como a fuga dentro de uma montanha, onde Harrison Ford foge de uma pedra rolante gigante já entraram para o imaginário popular. Caçadores da Arca Perdida é a cara do cinema de Steven Spielberg dos anos 80, extremamente escapista, mas um entretenimento puro e clássico.



Gangues de Nova York (Gangs of New York)



Indicações: Filme (Alberto Grimaldi, Harvey Weinstein), Diretor (Martin Scorsese), Ator (Daniel Day-Lewis), Canção (The Hands That Built America – Bono, The Edge, Adam Clayton, Larry Mullen Jr.), Direção de Arte (Dante Ferretti, Francesca Lo Schiavo), Figurinos (Sandy Powell), Fotografia (Michael Ballhaus), Montagem (Thelma Schoonmaker),  Roteiro Original (Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan), Som (Tom Fleischman, Eugene Gearty, Ivan Sharrock)

Ano em que concorreu: 2003

Gangues de Nova York marca o início da parceria bem-sucedida entre Martin Scorsese e Leonardo Di Caprio, juntos os dois fariam mais outros filmes de sucesso como O Aviador, Ilha do Medo, Os Infiltrados e O Lobo de Wall Street. Grandioso e violento, esse trabalho conta os primórdios da cidade de Nova York, o quanto sua história foi marcada, em seu início, por derramamento de sangue e a briga territorial entre diversas gangues, uma delas lideradas pelo xenófobo Bill, o Açougueiro (Daniel Day-Lewis) e outra pelo irlandês ‘Priest’ Vallon (Liam Neeson). Vallon acaba assassinado em um confronto por Bill e seu filho, Amsterdam, retorna à cidade já adulto para vingar-se de Bill, ganhando primeiro a sua confiança. Gangues de Nova York é um ótimo filme e tem a marca de Scorsese, que sabe dar agilidade a uma trama de época, mas não evita momentos mais arrastados num filme que poderia ter meia hora a menos na sua duração, alguns personagens não empolgam, como a golpista vivida por Cameron Diaz. Mas vale pela excelente atuação de Daniel Day-Lewis e de Leonardo Di Caprio e crescente tensão entre os dois personagens. Na festa do Oscar de 2003, o filme foi indicado a 10 prêmios e não ganhou nenhum deles, incluindo Martin Scorsese, grande cotado como melhor diretor naquela noite, mas viu sua chance ir para as mãos do não presente Roman Polanski (O Pianista). Foi melhor assim, mais satisfatório vê-lo receber pelo muito superior Os Infiltrados em 2007 das mãos de seus parceiros George Lucas e Steven Spielberg.



Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution)



Indicações: Filme (Arthur Hornblow), Diretor (Billy Wilder), Ator (Charles Laughton), Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester), Montagem (Daniel Mandell), Som (Gordon Sawyer)

Ano em que concorreu: 1958

Agatha Christie vem sendo redescoberta pelo cinema em 2017, com o lançamento de Assassinato no Expresso Oriente, a autora inglesa considerada a Rainha do Crime, é uma das grandes escritoras do gênero policial e de mistério e presenteou leitores com romances, contos e peças teatrais onde um crime precisa ser decifrado e resolvido e o final sempre prima pela surpresa e o inesperado. Testemunha de Acusação tem a direção de Billy Wilder e segue a contramão de boa parte dos livros de Agatha, é uma peça teatral que conta a história do assassinato de uma senhora rica e a suspeita recai sobre um homem mais novo (Tyrone Power) com quem ela se envolveu. Um advogado (Charles Laughton) decide defende-lo e, claro, nem tudo é o que parece ser. Testemunha de Acusação tem humor, mistério e ótimas atuações de Tyrone, Laughton e Marlene Dietrich (que interpreta a dúbia esposa do acusado) e consegue conservar-se no tempo, como boa parte da filmografia de Billy Wilder, prendendo a atenção com uma trama cheia de reviravoltas.



sábado, 14 de outubro de 2017

Gênio Indomável (Good Will Hunting)


2 Oscar: Roteiro Original (Matt Damon e Ben Affleck), Ator Coadjuvante (Robin Williams)

Indicações: Filme (Lawrence Bender), Diretor (Gus Van Sant), Ator (Matt Damon), Atriz Coadjuvante (Minnie Driver), Canção (Miss Misery – Elliott Smith), Montagem (Pietro Scalia), Trilha Sonora – Drama (Danny Elfman)

Ano em que concorreu: 1998


Gênio Indomável, assim como os outros filmes que concorreram ao Oscar de 1998, conseguiu resistir ao tempo e envelhecer bem. Comparado aos indicados de melhor filme, é um drama mais discreto e intimista que poderia passar despercebido, mas consegue a identificação do público com a história de Will Hunting (Matt Damon), um rapaz que trabalha como faxineiro e em outros serviços pesados e que demonstra um enorme talento para a matemática, porém sua personalidade forte e a capacidade de sabotar si mesmo impedem que ele se integre ou crie laços com as pessoas. Após ser descoberto por um dos professores resolvendo um problema matemático dificílimo, Will tem a chance de sua vida e passa a ser orientado pelo psiquiatra Sean Maguire (Robin Williams) com quem mantem uma relação turbulenta de início e depois nasce uma terna amizade. Matt Damon e Ben Affleck foram alçados ao estrelato após este trabalho que valeu a eles o Oscar de Roteiro Original, Robin Williams ganhou o Oscar de ator coadjuvante por um de seus melhores papéis mostrando o talento que sempre teve para o drama e Gus Van Sant, diretor de obras transgressoras e independentes como Garoto de Programa, demonstra que também entrega bons filmes para o cinemão hollywoodiano. Além das categorias em que ganhou, Gênio Indomável conseguiu outras sete indicações, o que surpreendeu muita gente na época, visto hoje, sabemos que o filme chama atenção justamente pela sua certeira simplicidade e ainda possui muitas qualidades que estão em falta na atual safra do cinema americano.


Tubarão (Jaws)


3 Oscar: Trilha Sonora (John Williams), Montagem (Verna Fields), Som (Robert L. Hoyt, Roger Heman Jr., Earl Madery, John R. Carter)

Indicações: Filme (Richard D. Zanuck, David Brown)

Ano em que concorreu: 1976


E nasce o blockbuster tal como o conhecemos. Tubarão é aquele filme evento, que todos esperam e devem ver quando estreia no cinema. A partir daí o cinema hollywoodiano não seria mais o mesmo. E Steven Spielberg entraria em definitivo para a história do cinema. Não podemos esquecer da colaboração clássica de John Williams com uma trilha sonora icônica que, certamente, foi uma das responsáveis pelo imenso sucesso do filme. Quando um tubarão assola uma pequena cidade turística em plena alta temporada, Steven Spielberg opta, devido às dificuldades para fazer um tubarão crível, por fazer apenas a sugestão da presença do predador através da câmera subjetiva e da música que evoca toda uma tensão, resultando num dos grandes suspenses da história. No elenco temos Roy Scheider, Richard Dreyffuss e Robert Shaw, o chefe de polícia, um biólogo e um caçador, respectivamente, que se unem para capturar o gigantesco animal. Já Spielberg, apesar do talento comprovado como realizador, demorou ainda muito tempo para ser reconhecido com um Oscar pela Academia, sendo Tubarão o primeiro de muitos de seus filmes a ser lembrado com indicações nas categorias principais. Mesmo assim Tubarão não fez feio na premiação de 1976 e conquistou 3 estatuetas douradas (entre elas a de trilha sonora para o mestre John Williams).


Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)


2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Mo’Nique), Roteiro Adaptado (Geoffrey Fletcher)

Indicações: Filme (Lee Daniels, Sarah Siegel-Magness, Gary Magness), Diretor (Lee Daniels), Atriz (Gabourey Sidibe), Montagem (Joe Klotz)

Ano em que concorreu:  2010


Preciosa mexe com temas polêmicos e indigestos ao grande público como a gravidez na adolescência, abuso sexual a menores de idade no seio familiar. A protagonista vive uma existência dura, estuprada pelo pai, grávida dele, padece com o desprezo e a violência da mãe. Encontra um conforto na sua imaginação e na escola especial para a qual é encaminhada e tem contato com a professora que  consegue despertar a consciência sobre si mesma e sua condição. Preciosa tem uma direção de mão pesada de Lee Daniels e que extrai atuações poderosas da novata protagonista Gabourey Sidibe e de Mo’Nique, assustadora e desprezível como a mãe abusiva de Precious (merecidamente vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante). Preciosa tem o mérito de causar este incômodo no espectador ao trazer a história de pessoas à margem que passam invisíveis aos nossos olhos e quanto um olhar especial a elas faz toda a diferença numa existência de intenso sofrimento.